COGEN-SP, um exemplo a ser seguido

Lançada com pequeno alarde, uma iniciativa que pode mudar o futuro do setor elétrico, com repercussões energéticas, econômicas e geopolíticas

Equipe Portal GD, Editorial
29/12/2003

Enquanto Brasília mantinha suspense sobre as Medidas Provisórias definindo o "novíssimo modelo" para o setor elétrico, em São Paulo se lançava, com menos alarde, a Associação Paulista dos Co-geradores de Energia - COGEN-SP, uma iniciativa que pode mudar o futuro do setor elétrico, com repercussões energéticas, econômicas e geopolíticas.

O objetivo da COGEN-SP é incentivar o uso, no Estado de São Paulo, da co-geração, tecnologia que aproveita o calor produzido na geração termelétrica e que contém mais de 50% da energia do combustível. A vantagem da co-geração quando comparada à geração convencional é, portanto, a elevada eficiência. Como o calor não pode ser transportado para grandes distâncias, a co-geração é uma típica solução de Geração Distribuída em que a unidade geradora é dimensionada para atender as necessidades locais de calor e de eletricidade.

Em termos energéticos, a iniciativa é importante, pois, de um lado, as grandes hidrelétricas de São Paulo já foram desenvolvidas e, de outro, a indústria e as grandes concentrações urbanas no Estado indicam haver um grande potencial de co-geração. Basta lembrar que o Estado tem fontes de energia locais abundantes, tais como as biomassas combustíveis e o gás natural recentemente descoberto. Também é importante lembrar que a geração junto às cargas reduz perdas de transmissão e, ao desconcentrar a geração, aumenta a estabilidade e reduz riscos sistêmicos de apagões.

Com a iniciativa, ganham os co-geradores que transformam em energia útil fontes antes desperdiçadas e reduzem custos na produção de vapor ou de frio, aumentando sua competitividade. As vantagens econômicas para o Estado são óbvias, pois mais empregos são fixados tanto na construção quanto na operação e a receita do ICMS - Imposto sobre a Circulação de Mercadorias e Serviços, sobre a energia, é internalizada, mesmo na nova regra, em que parte irá para o estado produtor. As dimensões dos co-geradores, em geral de pequeno porte, por outro lado, reduzem os riscos inerentes aos mega-projetos, criando um novo nicho para investidores. Beneficia-se, finalmente, o setor elétrico como um todo, pois as fontes de financiamento da co-geração, inclusive de recursos dos créditos de carbono, não competem  com as linhas tradicionais do setor elétrico.

Vale notar que a COGEN-SP congrega um espectro amplo de interesses que inclui fabricantes, produtores de biomassa combustível, empresas de gás e elétricas e conta com o apoio do governo do Estado. Na verdade, em termos geopolíticos trata-se de um movimento que amplia a participação do Estado no trato da questão energética como ocorria na década de 60 quando se formaram as bases do que os analistas costumam chamar dos "anos de ouro do setor elétrico".

A co-geração traz à baila uma nova realidade onde as economias e preços baixos não derivam da escala de produção das obras gigantescas, mas de um conceito que os economistas chamam de "economia de  escopo”   onde o menor custo está associado à produção conjunta de diversos produtos, no caso, calor e energia elétrica. Nesse universo cresce a importância de fatores regionais e o papel de cada consumidor que precisa ser reeducado para a nova realidade. Daí a importância de iniciativas como a COGEN-SP

É importante notar que não se trata de um rompimento de uma unidade da federação com as demais. Pelo contrário, as perdas evitadas, assim como o aumento da vida útil dos sistemas de transmissão redundam em economias que vão apoiar outras unidades onde há menos potencial para a co-geração. É importante que a iniciativa de São Paulo se reproduza em outros Estados e regiões de forma adaptada às potencialidades específicas.  Aos poucos o país vai mudar a mentalidade pela qual a solução de todos os problemas de energia está nas mãos do governo federal .... muitas estão ao alcance dos consumidores que podem ter ganhos econômicos no processo.

Editorial do Portal Geração Distribuída, Canal Energia, 29/12/2003

 
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