Carlos Roberto Silvestrin

Muitas oportunidades de cogeração no Rio de Janeiro

29 de abril de 2005

Segundo Carlos Roberto Silvestrin, vice-presidente executivo da COGEN SP, a COGEN RIO deve trabalhar por segmento para incentivar a cogeração no estado do Rio de Janeiro. "Devemos identificar, por exemplo, em um bairro, os principais clientes potenciais e chamá-los para uma reunião, a fim de passar uma catequese sobre a cogeração", afirmou. O uso da cogeração como oportunidade de negócio, o interesse dos consumidores pelo tema e a inclusão da geração distribuída na legislação foram alguns dos temas abordados na entrevista exclusiva ao Portal GD após a reunião preparatória para a criação da COGEN RIO, no dia 22 de março. Leia a entrevista a seguir.

Portal GD: Como a cogeração pode gerar negócios para os diversos setores da economia?
Silvestrin: A COGEN SP vê a cogeração como um conceito, não como um produto final. É preciso que se entenda o que é a cogeração, agregando valor de percepção dessa importância. Em seguida, deve-se colocar em movimento, criando uma cadeia de toda a corrente que envolve a indústria da cogeração, ou seja, clientes, fornecedores, prestadores de serviço, financiadores, e, inclusive, a mídia.

Ao conseguir esse movimento, começam a surgir oportunidades de negócio e, assim, elas se tornam reais. É importante ter a percepção da questão da cogeração como uma atividade empresarial.

Portal GD: A geração distribuída acabou de ser incluída na lei. O que ainda é preciso ser implementado?
Silvestrin: Na visão da COGEN SP, a legislação já abrange aquilo que eu chamo de macro regulamentação. Nós não precisamos mais mexer com isso. Agora, é necessário ajustar a regulamentação operacional, a que está nas resoluções da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), isto é, as questões relacionadas a back-up, a paradas dos equipamentos, ao paralelismo com as redes concessionárias e a questão operacional da comercialização de excedentes, se houver.

São detalhes operativos que estão envolvendo basicamente a Aneel, não mais a legislação. Tudo já se encontra na lei 1.0848 da geração distribuída e, principalmente, no decreto 5.163. É preciso, no momento, cuidar da parte operativa, que é algo novo, com as concessionárias. Encaramos isso como uma atividade permanente, porque sempre teremos ajustes a serem feitos.

Portal GD: No Rio de Janeiro, já existe algum caso de sucesso no uso da cogeração? Onde estão as maiores oportunidades de negócio?
Silvestrin: A Ambev já possui uma planta de cogeração de cerca de 15 MW, que opera há bastante tempo no regime de outsource. A Globo utiliza a cogeração não só no Projac, como também em seu centro gráfico.

Percebo, no Rio de Janeiro, uma oportunidade muito grande na atividade de comércio e de serviço. As cadeias de hotéis que tem suas filiais no Rio já utilizam a cogeração de grande porte na sua matriz européia ou norte-americana. Acho, então, que é uma questão de focar esses segmentos, buscar as pessoas de contato e iniciar esse relacionamento.

Portal GD: Essas cadeias seriam os maiores beneficiários da cogeração no Rio de Janeiro?
Silvestrin: Hoje, a cogeração é mais competitiva para essas cadeias. Não falo, por exemplo, em um cliente industrial que recebe energia em 138 kV, que, certamente, vai decidir por cogeração muito mais por uma estratégia energética nos dias de hoje, tendo em vista os atuais preços da energia elétrica no mercado livre.

Agora, os clientes do A4, que não têm a chance de participar do mercado livre, poderão participar desse processo em uma estratégia de redução de despesas com energia. A própria distribuidora de energia elétrica pode participar. Em São Paulo, a Eletropaulo e a CPFL estão atuando, firmemente, no mercado de cogeração.

Portal GD: Como é possível despertar no consumidor o interesse pela cogeração?
Silvestrin: É fácil para as pessoas entenderem os benefícios da cogeração, mas é difícil perceber a importância de tê-la na sua unidade. É preciso identificar em cada segmento, como, por exemplo, no setor comercial, no setor de serviço e no setor industrial, quais são as carências e as dúvidas com relação à questão da energia. Os pontos ativos vão provocar a demanda e, assim, o estudo de viabilidade.

Eu diria que é um prazo muito curto entre a vontade de realizar um estudo de viabilidade e a tomada de decisão. Se não for bem trabalhada, logo no início, a percepção do interesse, ela pode vir a desaparecer e perder o seu sentido. Por isso, destaco a criação de uma corrente. Não se pode fazer uma campanha e colocar anúncios, mas depois não se trabalhar o assunto. Nós temos que identificar cada caso e trabalhá-lo. É preciso estar presente e divulgar a cogeração em todos os segmentos. Dessa forma, provoca-se interesse, gerando negócios.

Portal GD: O preço é, ou não, o ponto mais forte da cogeração?
Silvestrin: Diria que, no primeiro instante, a cogeração é muito mais a convergência de interesses e o entendimento de seus benefícios. O preço, evidentemente, é um componente na decisão final. No entanto, antes de se discutir a questão do preço, há uma série de fatores envolvidos, como a questão do meio ambiente, por exemplo.

Se uma atividade precisa investir para melhorar determinadas condições ambientais por uma obrigação legal, é possível, de repente, fazer um projeto de cogeração que já supre essa necessidade legal, otimizando o investimento.

O importante é que a cogeração seja analisada caso a caso. Em uma linguagem bem simples, é como comprar uma roupa, ou seja, você precisa de uma adaptação às características do seu corpo. Cada cliente pode ter a mesma tecnologia de outro e o mesmo conceito de projeto, mas o seu desenho sempre terá uma característica específica para atender às suas necessidades. Caso contrário, o cliente não vai fazer a cogeração.

Portal GD: Qual é o interesse do consumidor físico no uso da cogeração residencial?
Silvestrin: Tendo em vista a nossa estrutura tarifária de energia elétrica e o volume de energia consumido por unidade, a cogeração residencial ainda está muito distante no Brasil. Acho que não está no foco, agora, pensar a cogeração residencial, a não ser em um grande condomínio. O foco é a cogeração para as atividades de comércio em shopping center, supermercado, hotéis, clubes e spas.

Portal GD: Quais ações a COGEN RIO deve promover para incentivar o governo e as empresas a usarem formas descentralizadas de energia?
Silvestrin: É preciso trabalhar por segmento. Devemos identificar, por exemplo, em um bairro, os principais clientes potenciais e chamá-los para uma reunião, a fim de passar uma catequese sobre a cogeração. Temos que dizer do que se trata, como funciona, quais são as tecnologias aplicáveis a cada caso, citar exemplos e mostrar os aspectos da legislação do setor elétrico e do setor de gás.

As pessoas só vão decidir sobre o uso da cogeração quando receberem essas informações e forem provocadas a analisar uma situação diferente da atual. Elas devem sentir que há uma atividade econômica envolvida e uma taxa de retorno razoável para a realização do projeto.
É muito importante, também, que se trabalhe com os agentes provedores dessa tecnologia. Nos modelos da Icara e da Dalkia, por exemplo, eles são os investidores e o cliente é apenas um comprador de um insumo energético, que pode ser energia elétrica, água quente, água gelada e etc.

Portal GD: Como a COGEN RIO beneficia os seus associados?
Silvestrin: A forca associativa pode trazer à tona muitas oportunidades de negócio. Assim como ocorre na COGEN SP, nós temos associados de todos os segmentos, isto é, fabricantes de tecnologia, investidores, provedores de serviços, comercializadores de gás, energia elétrica. Cada projeto é, no fundo, uma montagem de todos esses agentes. Há o fabricante do motor, o fabricante da turbina, a empresa de engenharia que faz o projeto, a empresa de operação e manutenção, a empresa fornecedora de gás, a empresa fornecedora de back-up e etc.

Dessa forma, tenho que levar para cada cogeração potencial a oportunidade de negócio de todos os seus agentes e, com isso, fortaleço essa força associativa e, cada vez mais, geram-se oportunidades de negócios. As pessoas, ao realizarem negócios, sentem-se seguras, empenhadas e motivadas a buscar novos contratos.

Fernanda Motta, Portal GD - Geração Distribuida

 
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