Apesar do desenvolvimento contínuo de novas tecnologias
para a utilização da cana-de-açúcar
como fonte energética, as perdas decorrentes de práticas
inadequadas no processo de colheita ainda impedem uma melhor
utilização da matéria-prima. A informação é do
professor da Universidade de Campinas (Unicamp) e ex-chefe
da área de energia do Centro de Pesquisas do Centro
de Tecnologia da Copersucar, Isaías Macedo - especialista
no assunto. Segundo ele, a evolução da legislação
ambiental, que reduz progressivamente a adoção
de queimadas na etapa de colheita da safra de cana, está ajudando
a diminuir as perdas da capacidade energética do bagaço,
que pode chegar a uma potência de até 5 GW.
- Há realmente um enorme desperdício
de energia na agroindústria de cana?
Isaías Macedo - A possibilidade de gerar
muito mais energia existe. A cana-de-açúcar é constituída por
três componentes no processamento industrial: a sacarose,
a celulose e a folha, que é retirada no campo, muitas
vezes por processo de queimada. Essas três partes, no
montante de 1 tonelada, tem energia equivalente a 1 barril
de petróleo. O desperdício ocorre mais fortemente
dentro da própria usina, na queima do bagaço.
Essa parte, especificamente, pode ser muito melhorada, pois
a eficiência da queima é muito baixa. O desperdício
na queimada da safra também é muito grande.
- Qual seria esse potencial de melhora?
Isaías Macedo - Acredito que
o Brasil possa gerar a mais, em relação a hoje,
cerca de 5 GW durante os seis meses de safra, dependendo da
tecnologia que for usada.
- O que está sendo feito para incentivar a
eficiência na produção?
Isaías Macedo - Há cerca
de 15 anos, a legislação não permitia
que o produtor vendesse energia para fora. Isso está mudando,
mas ainda há regulamentação que restringe
o montante e o valor de venda. Isso deve mudar no curto prazo.
A queimada no campo também poderia ser usada para gerar
excedentes de energia, e hoje há processo de corte de
cana sem queima. Neste caso há um custo adicional, mas
que acaba se tornando obrigatório por legislações
ambientais. Em São Paulo, uma lei estadual força
a redução gradual da queimada em 5% a cada ano.
- O eventual uso dos resíduos pode atrapalhar
as demais atividades de usinas sucro-alcooleiras?
Isaías Macedo - O uso de resíduos
não atrapalha em si. São oportunidades, não
encaro como problemas. Com legislação adequada,
o uso de resíduos gera mais negócios para a usina,
mais faturamento, mais empregos, e conseqüentemente, mais
energia para a sociedade.
- Quais os principais desenvolvimentos do setor sucro-alcooleiro
voltados para a cogeração?
Isaías Macedo - A nível
comercial, são sistemas térmicos de alta pressão,
como caldeiras e turbugeradores. Em desenvolvimento, é a
recuperação econômica da palha de cana.
Em terceiro, tecnologias mais avançadas para a geração
de energia elétrica, como o uso de turbinas a gás
na usina.
- Onde estaria o maior potencial de expansão
para este segmento?
Isaías Macedo - Na utilização
de matérias como papel-celulose, palha de arroz, lenha
e outros resíduos agrícolas. Em madeira, o custo
de produção de biomassa é muito baixo,
e pode se tornar um combustível muito interessante para
geração de energia elétrica. Hoje, sua
utilização é muito baixa.
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