Crescimento Econômico e Expansão da Oferta de Energia

Um novo ciclo de crescimento sustentado no país depende da viabilização da expansão de oferta de energia em taxas superiores àquelas verificadas no período anterior ao racionamento.

* Goret P. Paulo, Artigo Publicado pelo Canal Energia - Mercado Livre - 23/10/2003

Nas últimas duas décadas, o Brasil apresentou uma taxa de crescimento média da ordem de 2%, alternando-se períodos de taxas negativas com anos de crescimento significativo. Estes últimos resultantes principalmente dos efeitos de curto-prazo de sucessivos planos de estabilização e aumento dos investimentos externos com a privatização.

Dos US$ 105,5 bilhões arrecadados com o programa de desestatização, expressos na forma de receita de vendas das empresas estatais e transferência de dívida para o setor privado, aproximadamente US$ 32 bilhões correspondem à contribuição do setor elétrico. Os investidores estrangeiros contribuíram com 48% do total arrecadado com o programa, tendo, portanto uma participação significativa na melhoria das contas externas brasileiras proporcionadas pelo aumento dos investimentos diretos no país.

No início dos anos 90, o setor elétrico experimentou uma crise financeira que levou a um aporte de recursos do Tesouro Nacional da ordem de US$ 28 bilhões em 1993. Esta crise aliada à incapacidade financeira do Estado em manter os investimentos necessários para expansão da oferta de energia elétrica justificaram a proposição, por parte do governo, de um novo modelo institucional para o setor em meados dos anos 90.

Este modelo que tinha entre as suas premissas básicas a separação das atividades de geração, transmissão e distribuição e a implantação da competição na geração e comercialização de energia não chegou a ser completamente implantado, uma vez que o processo de privatização das empresas estatais de geração não foi concluído, impedindo assim a competição neste segmento.

Mesmo assim, a participação de investidores privados na indústria de energia elétrica contribuiu de forma significativa para expansão, aumento da eficiência e melhoria da qualidade de atendimento ao consumidor verificadas na indústria nos últimos anos. Atualmente 23% do segmento de geração e 65% da distribuição de energia elétrica estão sob o controle do capital privado. No segmento de transmissão, 17 das 26 empresas transmissoras são privadas.

No período de 1997 a 2002, apenas no segmento de distribuição foram investidos cerca de R$ 22.6 bilhões com o objetivo de melhorar a qualidade do atendimento ao consumidor. No segmento de geração, verificou-se uma expansão de capacidade de geração no período 1995-2000 superior em 161% aquela ocorrida no período 1990-1994. A taxa média de expansão no segmento de transmissão passou de 0,8% para 3,0% ao ano.

Apesar do aumento do investimento privado nos diversos segmentos da indústria de energia elétrica e o limitado crescimento verificado no país nos últimos anos, não foi possível evitar a crise de abastecimento de energia em 2001. Sendo assim, torna-se evidente que um novo ciclo de crescimento sustentado no país depende da viabilização da expansão de oferta de energia em taxas superiores àquelas verificadas no período anterior ao racionamento.

O racionamento de energia, além de originar a crise financeira dos agentes, também teve como resultado o atual excesso de oferta conjuntural de energia.

Com o objetivo de garantir o suprimento de energia no médio e longo-prazo, e considerando-se um crescimento do PIB da ordem de 4% ao ano, a capacidade de geração no país deveria ser acrescida em aproximadamente 5.000 MW ao ano. Para viabilizar esta expansão o Ministério das Minas e Energia (MME) está propondo a implantação de mudanças nas regras vigentes para o setor.

Estas mudanças justificam-se principalmente pela situação de desequilíbrio financeiro em que se encontram os agentes de geração e distribuição e a inexistência de investimentos no setor em montantes compatíveis com o crescimento sustentado do país. A situação atual de paralisação das decisões de investimento, onde os agentes aguardam a definição das novas regras, traz sérias preocupações com relação ao suprimento de energia no médio prazo.

Como ponto positivo do novo modelo institucional proposto deve-se destacar a ênfase no planejamento integrado do setor energético e estabelecimento de uma política para o setor. Um dos benefícios deste tipo de planejamento seria o desenvolvimento do mercado de gás natural cuja demanda pode ser expandida, por exemplo, pelo aumento da cogeração a gás pelos consumidores industriais.

Por outro lado, o grande desafio deste modelo consiste no detalhamento dos conceitos propostos pelo MME de forma a compatibilizar a justa remuneração do investidor, modicidade tarifária, universalização, manutenção da qualidade dos serviços e expansão da geração.

A expansão da oferta de energia depende da existência de investimentos e da disponibilidade de financiamentos internos e externos. O BNDES não tem como financiar sozinho a expansão do setor. É fundamental para viabilização de financiamento ao menor custo possível, e, portanto para reduzir o custo final de geração, a correta alocação dos riscos entre geradores, transmissores, distribuidores e consumidores. Esta alocação deve ser expressa em contratos de longo prazo – superiores a 15 anos - para os geradores.

Para viabilização e financiabilidade destes contratos de longo prazo, destacam-se as seguintes questões a serem equacionadas:

a) Clareza e estabilidade das regras propostas para o setor, assim como capacidade de sustentar legalmente a aplicação destas (“enforceability”);

b) Respeito aos contratos existentes. Diversos agentes financeiros internacionais participam do financiamento a projetos no Brasil, concedidos com base nos contratos de compra e venda de energia assinados de acordo com o conjunto de normas vigente. Qualquer interferência na execução destes contratos pode limitar significativamente a disponibilidade de financiamento por parte destes agentes.

c) Melhoria na situação de desequilíbrio financeiro das distribuidoras: O risco de crédito das distribuidoras, que são responsáveis pelos pagamentos referentes à aquisição de energia dos geradores, será considerado de forma individual ou coletiva, para concessão de financiamento para geração.

O Programa de Capitalização das Distribuidoras proposto pelo MME procura tratar esta questão através de viabilização de empréstimos do BNDES condicionados à capitalização das empresas pelos acionistas e renegociação da dívida de curto prazo destas empresas. Este programa, uma vez implementado, poderá melhorar significativamente a situação de caixa destas empresas no curto prazo, e contribuir para a melhoria geral do perfil de endividamento das empresas. Vale lembrar que a adesão ou não ao programa dependerá de uma decisão individual dos acionistas de cada empresa.

d) A revisão tarifária a cada cinco anos, proposta para as geradoras que venderem energia para o pool, requer o estabelecimento de critérios objetivos para sua realização. Para concessão de financiamento, os bancos vão analisar cuidadosamente a capacidade do gerador em manter seu fluxo de receita durante o período de amortização e pagamento de juros da dívida.

e) O índice de reajuste dos contratos de energia no pool deverá refletir a variação dos reais custos do gerador. A capacidade do gerador em equilibrar seus custos e a receita originada pelo contrato de compra e venda de energia, ao longo do período de duração do contrato é fundamental para financiabilidade do projeto de geração. O índice ou cesta de índices de reajuste deve garantir tal equilíbrio e ser calculado, mantido e divulgado por instituição independente do governo.

Além destas questões relacionadas ao financiamento da expansão da geração, vale ressaltar que a manutenção da opção dos consumidores em tornarem-se livres, podendo, portanto escolher seu supridor ao término do contrato existente, é fundamental para atrair investimentos no segmento de autogeração e cogeração.

Os consumidores industriais buscam fontes de suprimento de energia confiáveis a preços competitivos. Para atingir tais objetivos, muitas vezes se transformam em investidores em geração nas modalidades de autoprodução e cogeração. Para fins de planejamento, a distribuidora não deveria ser penalizada pela diferença entre o mercado planejado e o realizado desde que esta diferença seja explicada pela saída de um consumidor livre. A sobra de energia, em um primeiro momento, seria considerada como reserva para o sistema.

Além da expansão da oferta de energia elétrica, a viabilização de pequena e média cogeração contribui para utilização de forma eficiente do gás natural, além de evitar custos com transmissão e distribuição de energia, aumentar a confiabilidade de suprimento de energia, trazer benefícios ambientais, contribuir para o pagamento das obrigações existentes relativas à compra de gás natural da Bolívia e facilitar a expansão futura do mercado de gás natural.

Concluindo, a expansão da geração de energia para viabilizar um ciclo de crescimento sustentado no país passa pela restauração do planejamento integrado para o setor de energia e implementação de mudanças nas regras vigentes para o setor de forma a atrair investimentos privados e financiamento interno e externo.

Goret P. Paulo é coordenadora de Projetos na Área de Energia e Meio Ambiente do IBRE/FGV

Artigo publicado pelo www.canalenergia.com.br


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