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A importância da cana-de-açúcar
Sua cultura reúne condições relevantes para se tornar a mais importante fonte de geração descentralizada no país

Osório de Brito
14/01/2004

A cultura da cana de açúcar reúne condições altamente relevantes para se tornar a mais importante fonte de geração descentralizada no país.

Os números abaixo sobre o conteúdo energético de 1t de cana de açucar evidenciam a importância da cultura canavieira para efeitos de seu emprego como fonte primária de produção de energia. Observe-se que o conteúdo energético da biomassa resultante da produção de açúcar e/ou do álcool alcança 1.110 mil kcal num total de 1.718 mil kcal (ou seja cerca de 65 % deste total) e que, entre os açúcares (608 mil kcal), está o etanol, combustível, hoje, usado veicularmente, seja adicionado à gasolina ou ao óleo diesel, seja utilizado isoladamente. 

  Sub-produto
  Quantidade
(kg)
  Conteúdo Energético
(mil kcal)
Açúcares
153
608
Bagaço (50% de umidade)
276
598
Palha (15% de umidade)
165
512
TOTAL
-------
1.718

Uma tonelada de cana de açúcar possui mais energia que um barril de petróleo (1.386 mil kcal).

Assim, com 1t de cana de açúcar  é possível obter-se:

- 1/3 em caldo de cana, utilizado para produção de açúcar (alimento) e etanol (energia limpa e renovável);
- 1/3 em bagaço utilizado para co-geração (energia limpa e renovável);
- 1/3 em palha igualmente utilizado para co-geração (energia limpa e renovável).

Por força da crise do petróleo, ocorrida na década de 70, o país criou, na época, o maior programa de energia alternativa no mundo, o PRO-ALCOOL, com repercussões no parque fabril automotivo brasileiro e na frota nacional de veículos. Entretanto, logo após os países árabes suspenderem as suas manipulações de preço, extinguindo-se, conseqüentemente, a crise artificialmente gerada em face da cartelização coordenada pela OPEP, este programa sofreu um retrocesso, motivado pelas seguintes razões:

(a) os derivados do petróleo voltaram a se tornar competitivos;
(b) os subsídios aos produtos da cana foram extintos;
(c) o açúcar assumiu um valor comercial significativo, no Brasil e no exterior, provocando uma redução, por substituição, da produção de álcool; e
(d) por parte do Governo, minimizaram-se as vantagens oferecidas ao usuário do álcool carburante.

Contudo, malgrado estes fatores desfavoráveis, o mercado de álcool, no Brasil, não se estiolou, mantendo-se estável até hoje, principalmente porque houve a decisão de adicioná-lo à gasolina e ao diesel.. No exterior, por sua vez, ocorreram modificações significativas pois alguns países, como o Japão, a Alemanha e, nos EUA, o Estado da Califórnia, passaram a considerá-lo em suas matrizes energéticas, criando um mercado exportador com tendências crescentes. Hoje, conseqüentemente, há condições reais para a manutenção desta tendência, fornecendo, ao álcool, todo um contexto favorável, no qual se insere, aditivamente, as suas características não poluidoras: não gera emissões de CO2  nem de particulados nem de qualquer gás nocivo ao meio ambiente.

Importa comentar que o setor sucro-alcooleiro, em seus primórdios, ignorava a possibilidade de aproveitamento do bagaço e muito menos da palha; comprava energia elétrica das concessionárias locais e queimava óleo combustível. Paulatinamente, o uso do bagaço foi se tornando corriqueiro em um processo co-gerador pois permitia produzir, concomitantemente, energias térmica, para o processo de transformação da cana, e elétrica, para a movimentação mecânica da indústria, para a iluminação e outros fins. A miopia do Setor Elétrico, entretanto, impedia a exportação de excedentes, em face, tanto das dificuldades impostas pela legislação, que defendia o monopólio existente na época, quanto pela cultura centralizante predominante no Setor Elétrico brasileiro, geradora de soluções hidrelétricas de grande porte.

Esta característica inibiu, totalmente, a queima eficiente do bagaço; de fato, os investimentos dimensionaram-se não pelo lado da potencialidade intrínseca do combustível mas, sim, pela quantidade máxima exigida pelo processo industrial. As unidades co-geradoras instaladas, em razão desta miopia, tornaram ineficientes esta combustão, desperdiçando quantidades significativas de energia potencialmente presentes tanto no bagaço quanto na palha.

Este "crime" não pôde ser evitado neste primeiro período de instalações das unidades co-geradoras sucro-alcooleiras. Atualmente, contudo, em face da proximidade do fim da vida útil destas unidades, da evolução da tecnologia e das alterações legais ocorridas no Setor Elétrico, os impedimentos à venda de excedentes à rede só poderão ocorrer em razão praticamente exclusiva da inércia da cultura centralizante que ainda predomina neste Setor. Observe-se que as alterações mencionadas anteriormente passaram a permitir o acesso ao "grid" e o compartilhamento das linhas de transmissão e das redes de distribuição ou, em outras palavras, passaram a incentivar a concorrência na geração da eletricidade.

Ademais, a palha que, neste primeiro período, não era utilizada, agora, por força da evolução tecnológica ocorrida tanto na cultura da cana quanto nos equipamentos e no processamento da co-geração, passou a colaborar com a produção energética, fato que aumentou a capacidade energética do setor sucro-alcooleiro.

Para se ter uma idéia do potencial, hoje, intrínseco a este setor, vale citar:

(a) a produção anual atual (320 milhões t de cana) equivale a 360 milhões de barris de petróleo por ano; como a produção anual brasileira de petróleo, hoje, atinge cerca de 547 milhões de barris por ano, a energia potencializada no setor sucro-alcooleiro equivale a cerca de 65,8 % da produção nacional de petróleo;
(b) as cerca de 300 usinas de produção de açúcar e/ou de álcool hoje existentes podem desenvolver, dependendo das condições locais, das características da produção sucro-alcooleira e da tecnologia atualizada aos níveis de hoje, tanto na cultura da cana quanto na produção co-geradora, de 10 a 100 MW, cada uma. Juntas, poderiam atender mais de 10% da demanda brasileira por energia elétrica.

O uso racional dessas biomassas combustíveis (bagaço e palha) representa uma típica solução de geração distribuída. Com efeito, as citadas cerca de 300 usinas de produção de açúcar e/ou de álcool hoje existentes localizam-se próximas dos centros de consumo elétrico. Ademais:

- este potencial energético tende a crescer pois há uma expectativa de aumento da safra de 2003, de 15 a 20 % em relação à do ano anterior;
- o setor sucro-alcooleiro potencializa a produção de energia elétrica exatamente na época de escassez de chuvas nos reservatórios ou, em outras palavras, na contra-mão do ciclo pluviométrico do parque hídrico brasileiro, gerando uma complementariedade efetiva à oferta hidrelétrica brasileira.

Esta proximidade dos centros de consumo elétrico, aliada à potencialidade da exportação dos excedentes, agora extremamente inflada em razão da evolução tecnológica verificada, e à complementariedade com o parque gerador hidrelétrico brasileiro, se não coloca a cultura da cana de açúcar como a melhor alternativa de geração distribuída dentre todas aquelas passíveis de serem disponibilizadas rapidamente no país, certamente a situa dentre as mais promissoras. Além destes fatores, pode-se citar ainda:

- os valores elevados de energia injetadas à rede, dando ancoragem ao   Sistema Interligado;
- o fato de ser fonte renovável; e
- ser fonte altamente benéfica ao meio ambiente pois fornece uma alternativa comercialmente válida para o uso dos seus resíduos.

Concluindo, a cultura da cana de açúcar, sem dúvida, representa o mais eloqüente exemplo de geração distribuída no Brasil, preenchendo, se a predominância da visão centralizante do Setor Elétrico brasileiro não frustrar esta alternativa, as melhores condições de geração descentralizada no país, acompanhada, de perto, pelo aproveitamento do gás canalizado.

Osório de Brito é engenheiro eletricista e diretor do INEE

 
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