A cogeração de energia no Estado de
São Paulo está sendo implementada a partir
de iniciativas das distribuidoras de gás natural
e das usinas produtoras de açúcar e álcool
e das indústrias e empresas comerciais que focalizam
a energia de forma estratégica nos seus custos
de produção e desejam reduzir a vulnerabilidade
do sistema interligado de energia elétrica,
principalmente, a partir do racionamento de 2001. Os
projetos em operação indicam o interesse
de promover a cogeração como uma importante
alternativa de produção descentralizada
de energia.
Os projetos de cogeração em operação
no Estado de São Paulo representam cerca de
5% da atual demanda e poderá atingir 10% até 2006
(cerca de 1.500MW). Os principais projetos que somam
mais de 500MW são: (a) biomassa da cana-de-açúcar:
Usinas Equipav, Vale do Rosário, Santa Elisa,
Cocal, Cresciumal, entre outras e (b) gás
natural: Corn Products, Cia União Refinadores,
AmBev, Shopping Taboão, Coca Cola, Iguatemi
Business Plaza.
O potencial estimado de cogeração
em São Paulo, com ajustes na regulamentação
e estabelecimento de políticas estratégicas
de fomento, a exemplo daquelas que estão sendo
aplicadas nos países da Comunidade Européia,
indicam que no Estado de São Paulo será possível
viabilizar economicamente, num horizonte de 10 anos,
cerca de 5.000MW em projetos de cogeração
a gás natural e de biomassa de cana-de-açúcar,
o que deverá representar um percentual 25%
da demanda de energia elétrica. Esse percentual
possível de ser atingido em 10 anos é equivalente
ao percentual atual de geração distribuída
equivalente àquele previsto pelos principais
países da Comunidade Européia.
Cenários
da Cogeração de Energia
A possibilidade de
produzir e consumir energia térmica e elétrica
no mesmo local motiva e atrai interesses de indústrias,
comércio, fornecedores de equipamentos, prestadores
de serviços e investidores na implementação
de projetos de geração distribuída.
Essa possibilidade representa uma
tendência cada vez mais presente, na medida
em que a cogeração de energia proporciona
ao cliente final maior eficiência energética
com custos otimizados, a partir de um único
combustível e, além disso, possibilita
a convergência de ações estratégicas
relacionadas com as questões de mudanças
climáticas e de redução das
emissões de carbono.
No Estado de São Paulo com
o esgotamento dos recursos hídricos econômicos
para ampliar a produção de energia
hidrelétrica centralizada, a cogeração
poderá responder, estrategicamente, aos desafios
de oferecer de forma competitiva, as necessidades
futuras de energia para o seu desenvolvimento sustentado
possibilitando, inclusive, a diversificação
e a revitalização da Matriz Energética,
visando principalmente, os seguintes fatores que
deverão ser considerados na revisão
e atualização da política energética
paulista:
• reduzir
a dependência, que atinge
50% das necessidades atuais, de
importação de energia elétrica de
outras regiões produtoras, principalmente,
das usinas existentes e previstas na região
amazônica;
• viabilizar o aproveitamento das disponibilidades
de gás natural, principalmente, aquelas das recentes descobertas
na Bacia de Santos e, a crescente disponibilidade de biomassa
energética da cana, para ampliar a oferta competitiva
da energia requerida pelo mercado;
• incorporar a oportunidade
de obter maior eficiência energética e otimização
de custos dos insumos energéticos nas atividades industrias, comerciais,
serviços e agroindustriais, na ótica da competitiva globalização
econômica; e,
• incorporar os fatores de
decisão da nova ordem ambiental que favorecem a produção
e o consumo de energia, com o menor custo de transporte possível.
Os resultados da análise
de alternativas de equacionamento desses fatores
estratégicos favorece a implementação
de projetos de cogeração (Cogen), pelas
empresas do setor energético, da agroindústria
canavieira, dos investidores, dos prestadores de
serviços, fornecedores, dos financiadores
e, principalmente, dos consumidores finais de energia,
que poderão obter maior eficiência energética
nos seus processos produtivos, com menor custo e
maior qualidade nos insumos energéticos, visando
proporcionar maior competitividades dos produtos
e serviços a serem oferecidos ao mercado.
Os cenários prospectivos
para dinamizar a utilização das tecnologias
disponíveis para os projetos de cogeração
de energia, no Estado de São Paulo, podem
ser justificados pelas seguintes razões:
a.
Cenários do setor elétrico: excedente
de oferta no curto prazo >> perspectivas
de escassez no médio prazo >> incertezas
de oferta no longo prazo >> modelo em transição >> desaceleração
na execução das obras em andamento >> ausência
de uma regulação estruturada e
sustentada para motivar e atrair investimentos;
b.
Cenários do setor gás natural: grande
disponibilidade de oferta de gás natural
boliviano >> gasoduto Brasil-Bolívia >> grandes
descobertas de gás na Bacia de Santos >> necessidade
de criar mercados para monetizar as essas reservas >> oportunidade
para ajustar a regulamentação comercial
da oferta de gás natural para o segmento
de cogeração de energia;
c.
Preços da energia elétrica: possibilidades
de aumentos significativos >> revisão
tarifária >> retirada dos subsídios
cruzados mais acentuados para os clientes das
classes de alta tensão que são
cogeradores em potencial;
d.
Qualidade do serviço: exigência
de níveis compatíveis com o avanço
da automação da produção >> potencial
queda dos níveis atuais com a redução
de investimentos >> necessidades de expansão
dos sistemas de geração, transmissão
e distribuição;
e.
Tecnologia: avanços tecnológicos
para a geração distribuída >> redução
dos custos unitários dos sistemas de produção
de energia elétrica e térmica
f.
Sistemas T&D: necessidade
de atrair investimentos na expansão dos
sistemas de transmissão, sub-transmissão
e de distribuição >> custos
crescentes para os novos sistemas de produção
e transporte de energia elétrica >> distanciamento
das fontes produtoras dos centros de consumo;
g.
Meio ambiente: necessidade de
obter maior eficiência energética
na produção e no consumo >> estímulo à mitigação
de impactos ambientais >> redução
das emissões de carbono >> oportunidade
para projetos de créditos de carbono;
h.
Gás natural: grande disponibilidade >> reservas
no Litoral de São Paulo >> integração
com gasoduto Brasil-Bolívia >> maior
confiabilidade >> aplicabilidade para as
tecnologias cogeração de energia >> menor
custo com maior eficiência energética >> menores
impactos ambientais >> evitação
de investimentos de T&D >> maior qualidade
e confiabilidade nos sistemas elétricos;
i.
Biomassa da Cana de Açúcar: disponibilidade
crescente com a expansão da agroindústria
canavieira >> know how conquistado para
a utilização da biomassa da cana
na cogeração >> menor custo
operacional >> maior eficiência energética >> menores
impactos ambientais >> agregação
de valor para a agroindústria >> evitação
de investimentos de transmissão e distribuição >> maior
qualidade e confiabilidade nos sistemas elétricos;
j.
Energia de back up: oportunidade
para regulamentar a energia de back up >>> possibilidade
de redução de riscos e de custos
das interrupções técnicas
e ocasionais >> oportunidades de novas
aplicações tecnológicas
e arranjos comerciais;
k.
Vocação empresarial: buscar
a autoprodução de energia >> aumentar
grau de independência energética >> maior
possibilidade de gestão do custo dos insumos
energéticos da produção
industrial, comércio e serviços.
A análise desses cenários,
na ótica do mercado, possibilita ampliar ainda
mais as justificativas para promover a cogeração
de energia como uma solução energética
estratégica, para suprir as necessidades de
oferta crescente de energia elétrica para
do Estado de São Paulo, visando assegurar
o desenvolvimento com a competitividade requerida
pelo atual ambiente da economia globalizada.
Os principais indicadores que orientam
e definem as percepções do mercado
e de investidores em energia, para o fortalecimento
do segmento econômico – cogeração
de energia - são:
a.
Excedente de energia elétrica: Existe
e é conjuntural. Existe também
a possibilidade desse excedente ser uma “armadilha” no
balanço de oferta nos médios e
longos prazos, caso não sejam retomados
os investimentos e assegurada a expansão
sustentada da oferta de energia elétrica;
b.
Expansão da geração: Existem
obras de expansão paralisadas. Os investidores
aguardam aprovação do novo modelo
do setor elétrico, em elaboração
no Ministério de Minas e Energia. É admitida
a hipótese de que a aprovação
da nova regulação possa ocorrer
apenas no segundo semestre de 2004;
c.
Tarifas elétricas: Preços
atuais no mercado livre muito competitivas em
função dos excedentes de oferta
e descontratação dos blocos de
energia dos contratos iniciais. Preços
futuros dependentes do novo modelo institucional.
Tendência para elevar preços para
os clientes 88/138 kV (Grupo A) com o fim gradativo
dos subsídios cruzados. Incertezas na
política tarifária do novo modelo.
Condições de contratação
de energia para os consumidores cativos e clientes
livres;
d.
Tarifas Gás Natural: Preços
atuais elevados função das condições
de contratação do gás boliviano.
Perspectivas de redução substancial
dos preços e condições de
take or pay, função das negociações
em andamento com a Bolívia. Possibilidades
reais de preços competitivos com as recentes
descobertas de gás na Bacia de Santos
e expansão do sistema de distribuição.
Futura competição no mercado de
gás natural;
e.
Preço da Biomassa da Cana: Preços
referenciais atuais e futuros muito competitivos
em função da produção
atual e da expansão em andamento no setor
sucro-alcoleiro;
f.
Serviços Prestados: Necessidade
de melhorar a qualidade na oferta de energia
elétrica (tensão e freqüência),
para atender as necessidades de uma economia
cada vez mais dependente da eletrônica.
Existência de quedas na qualidade dos serviços
em função das restrições
de recursos para investimentos e na transmissão,
sub-transmissão e distribuição;
g.
Custos Adicionais: Perspectivas
de aumento dos preços da energia ofertada
nos médios e longos prazos para possibilitar
que a iniciativa privada participe da expansão
do setor elétrico e realize investimentos
necessários na geração,
transmissão e distribuição;
h.
Hidrelétricas e termelétricas: Incertezas
na realização de novos investimentos
para geração centralizada. Ausência
de um marco regulatório sustentado para
realização de investimentos privados
e dificuldades de alocação de recursos
públicos para o setor energético;
i.
Autoprodução: Existem
alternativas de soluções pontuais
que minimizam riscos e reduz as incertezas do
setor elétrico, porém, as novas
diretrizes empresariais, pós-racionamento
de 2001/2002, estimulam a auto-suficiência
energética como estratégia sustentada;
j.
Tecnologia: Os avanço
tecnológico para a termogeração
em pequena escala tem sido estimulado para reduzir
custos de produção. As disponibilidades
de biomassa da cana e de gás natural estimulam
investimentos na aplicação dessas
tecnologias em escala industrial;
k.
Competitividade: As possibilidades
de agregação de valor na qualidade
e na confiabilidade dos insumos energéticos
com a produção de energia localizada
junto aos centros de consumo possibilitam melhores
resultados econômicos com a produção
localizada de energia;
l.
Custos evitados: Os sistemas
de geração distribuída possibilitam
evitar e reduzir investimentos e perdas nos sistemas
de transmissão e distribuição,
com benefícios ao meio ambiente, otimização
de custos e maior eficiência energética;
m.
Eficiência: Ganhos de eficiência
energética >>> benefícios
para o meio ambiente >>> racionalização
de custos dos insumos energéticos
n.
Tendência: Os sistemas
de cogeração favorecem a utilização
das disponibilidades crescentes, com preços
competitivos de combustíveis disponibilizados
nos próprios locais de produção
e consumo de energia (biomassa de cana e gás
natural);
o.
Condições comerciais: Os
sistemas de comercialização de
energia necessitam apenas de pequenos ajustes
para a contratação dos combustíveis
para a cogeração;
p.
Segurança: Os sistemas
de cogeração possibilitam alternativas
de gestão de riscos e de apólices
de seguros para as centrais de cogeração,
inclusive, para a contratação da
energia de back up, motivados pela qualidade
assegurada no suprimento do combustível
e os ganhos de eficiência;
q.
Licenciamento ambiental: A legislação
ambiental atual “atrasa” a implementação
dos projetos de geração centralizada.
Para a cogeração de energia, pela
escala dos projetos, os processos possuem facilidades
adicionais em relação às
hidrelétricas e termelétricas,
pois, seu porte, tecnologia aplicada, características
do combustível e localização
industrial, favorecem a mitigação
dos impactos ambientas;
r.
Marketing: As soluções
energéticas com projetos de cogeração,
principalmente, a partir do gás natural,
ainda são recentes no Brasil e pouco conhecidas
por suas características e pelos agentes
do mercado. A monocultura da hidreletricidade
ainda é predominante;
s.
Legislação: Não
está pronta para deslanchar um amplo programa
de cogeração. A legislação
atual necessita de revisão. Os Órgãos
Públicos não enfatizam políticas
específicas de estímulo à eficiência
energética possíveis de serem obtidos
com a geração de energia descentralizada,
mas aceitam atualizações e revitalização
para estimular a cogeração;
t.
Marco regulatório e aptidão energética: Falta
definir arcabouço legal convergente com
as políticas para o gás natural,
a biomassa e a energia elétrica. É oportuno
identificar em nível regional e microrregional
das aptidões e prioridades energéticas
para a definição da regulamentação
aplicável;
u.
Foco Estratégico: A cogeração
exige soluções individuais, particularizadas
para cada caso, portanto, não é recomendável
padronizar soluções;
v.
Fomento: Existem, mas são
muito pouco atrativos. A ausência de um
marco regulatório específico não
motiva a formulação de políticas
específicas de crédito, financiamento
e incentivos fiscais.
Com esses cenários e percepções
podemos concluir ser oportuno constituir a Cogen
SP - Associação Paulista de Cogeração
de Energia, dedicada, para atuar
na promoção, integração
e na cooperação entre associados, para
estimular e fortalecer o mercado de cogeração
de energia no Estado de São Paulo, como um
novo segmento da economia.
A proposta é implementar
a Cogen SP como
sociedade civil sem fins lucrativos, constituída
por pessoas jurídicas que atuam ou planejam
atuar no mercado de cogeração de energia,
com os seguintes objetivos estratégicos:
a.
Política: Formular estratégias
e promover ambiência política e
institucional necessária para deslanchar
a cogeração a gás natural
e da biomassa da cana de açúcar;
b.
Regulação: Viabilizar
um Marco Regulatório ajustado para estimular
investimentos na produção descentralizada
de energia, principalmente, para a auto-suficiência
dos clientes;
c.
Mercado: Avaliar necessidades,
oportunidades e estimular a pesquisa e a aplicação
de tecnologias e serviços destinados para
a produção descentralizada de energia;
d.
Fomento: Buscar benefícios
e identificar incentivos e tributos fiscais de
interesse;
e.
Financiamento: Fomentar linhas
créditos, inclusive, com o aproveitamento
dos créditos de carbono, principalmente,
aqueles relacionados com os projetos de cogeração
com biomassa;
f.
Meio ambiente: Racionalizar e
facilitar os processos de licenciamento das centrais
de produção descentralizada de
energia;
g.
Marketing: Disseminar informação
e conhecimento sobre as tecnologias e suas aplicações
na produção e uso da energia elétrica
e térmica das plantas de cogeração;
h.
Energia primária: Atribuir
prioridade para o uso do gás natural e
da biomassa da cana de açúcar,
para os projetos de cogeração e
de geração distribuída no
Estado de São Paulo;
i.
Riscos operacionais: Criar sistemas
e procedimentos operacionais para estabelecer
network entre os cogeradores, visando racionalizar
os custos da energia de back up.